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Como o fim da escala 6x1 "bate" nas atividades do agronegócio

16/10/2026 


No Estado, são 15 mil trabalhadores nos frigoríficos de carne bovina, mas estima-se que haja 50 mil indiretos.
Fernando Gomes / Agencia RBS

Indústria prevê alta de custos, enquanto entidade dos assalariados rurais vê vitória para os trabalhadores

Fonte: GZH

Assim como nos demais segmentos produtivos, quando o assunto é o fim da escala 6x1 e a redução da carga horária semanal, o agronegócio tem avaliações distintas. Do lado das empresas, há a preocupação com o aumento dos custos operacionais, a dificuldade de contratar trabalhadores e o alerta para potenciais reflexos sobre a produção e os preços dos alimentos. Do ponto de vista de quem representa os trabalhadores, a medida é vista como um avanço nas condições de trabalho, especialmente em atividades marcadas pelo desgaste físico e pelo isolamento no campo. 

Com elevada necessidade de mão obra nas etapas de abate e processamento, a indústria frigorífica prevê dificuldades na adaptação à mudança. Segundo Rogério Kerber, diretor-executivo do Sindicato das Indústrias de Produtos Suínos do Rio Grande do Sul (Sips), a atividade é "particularmente exposta aos efeitos de uma eventual redução da jornada, devido à necessidade de manter o ritmo de produção e cumprir exigências sanitárias e de segurança ocupacional". Atualmente, os frigoríficos que processam carne suína envolvem 28 mil trabalhadores no Estado.

Na avaliação do dirigente, caso seja necessário repor integralmente as horas de trabalho reduzidas, o setor precisará ampliar o quadro funcional em aproximadamente 10%. Além das novas contratações, a mudança elevaria despesas com encargos sociais, férias, 13º salário, FGTS, contribuições previdenciárias, treinamentos, equipamentos de proteção individual, uniformes, transporte e alimentação. Também haveria aumento dos custos com supervisão, recursos humanos e medicina ocupacional. 

A preocupação é compartilhada por Ronei Lauxen, presidente executivo do Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados no Estado do RS (Sicadergs):

— O país que quer crescer trabalhando menos, acredito que não está no caminho certo.

O dirigente também lembra que o setor já enfrenta dificuldades para preencher vagas. No Estado, são 15 mil trabalhadores nos frigoríficos de carne bovina, mas estima-se que haja 50 mil indiretos.

Em nota, a Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo) manifestou apreensões semelhantes e defendeu que "qualquer mudança dessa magnitude seja precedida de amplo diálogo entre trabalhadores, empregadores, representantes dos setores produtivos e o poder público, de modo a conciliar os avanços sociais com a realidade econômica do país".

Vice-presidente do Sindicato das Indústrias de Máquinas e Implementos Agrícolas no Rio Grande do Sul (Simers), Carolina Luiza Rossato também lamentou "que a votação tenha sido sem debate e alinhamento com ambas as partes em um momento eleitoral". 

— Independente do resultado da eleição presidencial, devemos solicitar um pacote de incentivos para a manutenção da indústria nacional , incluindo a nova desoneração da folha em 2027, a adoção de períodos de transição adequados, com previsibilidade jurídica e operacional para as empresas — adiantou a vice-presidente do Simers.

A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), que representa os setores de aves e suínos no país, fez coro a essas preocupações. Em nota, a entidade ressalta que a cadeia já enfrenta dificuldades para completar seus quadros de funcionários, situação que levou, inclusive, à contratação de trabalhadores imigrantes.

Para o presidente da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), Domingos Velho Lopes, o fim da escala 6x1 "é um balão político, com finalidade eleitoral":

— O Brasil tem 40% dos trabalhadores operando na informalidade e mais de 9 milhões de micro e pequenas empresas negativadas. O fim escala 6x1 é desejável, mas não é possível. Na prática, vamos empurrar uma parcela da população que já é vulnerável para uma vulnerabilidade ainda maior, que é a informalidade.

Presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado (Fetag-RS), Eugênio Zanetti lembra que, no caso dos produtores familiares, eles próprios tocam as tocam as atividades do negócio que conduzem. E, neste caso, a escala é "7x0", porque há atividades que não param, como a da produção de leite. Não há um botão de liga e desliga para os animais. Mas a mudança na escala afeta as contratações temporárias que precisam ser feitas em momentos específicos, como, por exemplo, a colheita da uva. E que têm as mesmas exigências, seja a busca por dois ou por mil trabalhadores temporários. 

— A gente já vê que tem uma dificuldade de conseguir mão de obra. Pode dificultar ainda mais — observa Zanetti. 

Condições de trabalho no campo

Na outra ponta do debate, a Federação dos Trabalhadores Assalariados Rurais do Rio Grande do Sul (Fetar-RS) avalia a mudança como uma conquista para a categoria. Para o presidente da entidade, João Larrosa, a discussão representa um dos principais avanços das últimas décadas para os trabalhadores rurais:

— Nesses últimos 30 anos, é a grande conquista que a gente teve.

A federação representa trabalhadores assalariados, aqueles que atuam no plantio, no cuidado das lavouras e na colheita, ou na criação de animais, sem serem proprietários das terras onde trabalham. No Rio Grande do Sul, esse contingente é estimado em 110 mil pessoas.

Embora o grupo que represente não seja diretamente atingido, a Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar do Rio Grande do Sul (Fetraf-RS) entende como "muito positiva" a aprovação do fim da escala 6x1.

— Do ponto de vista econômico, com dois dias de folga o consumo de produtos da agricultura familiar poderá aumentar, o que é muito positivo — acrescenta Douglas Cenci, presidente da Fetraf-RS.